Vira e mexe me dá vontade de escrever, de ter um blog, uma vida virtual...algo que um dia eu possa ler e me lembrar, com ricos detalhes e frescuras de épocas e momentos em que eu fui feliz, ou estive triste, mas me lembrar com carinho e pensar “puxa, jura que eu quem escrevi isso? Não me reconheço”
Pois bem, finalmente passei essa vontade pra frente e criei este blog, com um nome memorável dos tempos da faculdade que eu tanto quero esquecer e uma vontade enorme de falar de tudo o que se passa neste ser esquisito – por dentro.

29 de nov. de 2010

90

Tive um professor, no segundo ano de faculdade, que, apesar do breve contato, deixou muitas saudades. Gostava dele, o Wanderley, mesmo. Sei lá, me inspirou a escrever. Numa das aulas, ele nos disse que o livro do semestre seria “Memórias de minhas putas tristes”, do mestre Garcia Márquez. A história é a de um cara de 90 anos que decide ter uma noite de amor com uma menina virgem se apaixona por ela ao vê-la dormindo. E descobre o verdadeiro prazer da vida. Sensacional, mas não é exatamente sobre ele esse post.
O caso é que o prof disse que deveríamos escrever uma crônica sobre nós mesmos, como se tivéssemos 90 anos. Vi vários colegas escrevendo sobre como queriam que a vida fosse (ou seja), mas eu, fresca, decidi fazer o contrário (novidade!!). Decidi escrever sobre como não queria (não quero) ser. E achei até que o resultado foi muito bom. A avaliação foi boa, acho que o prof gostou, e, quando fui procurar pra postar, tchan-tchan...perdi.
Escrevi outra, mais curta, nem tão boa, mas na mesma idéia. Será que pode mesmo ser considerada uma crônica?


Porta-retrato

Ainda que soubesse que eram minhas, não reconheci aquelas rugas me encarando de volta no espelho. Cada um dos meus 90 anos de descuido, de parcimônia e frescura estavam gravados em meu rosto. Pior que o guardião da cripta. Pior. Pior que era mesmo eu.
Nesse fatídico aniversário, pus-me a lembrar de toda a minha vida. Não uma daquelas situações dramáticas em que a vida passa diante de nossos olhos como um flash-back, mas um réquiem, mais uma frescura, para umas boas risadas. Algo que pudesse, de alguma forma, validar as minhas rugas.
Lembrei-me dos meus vinte anos, vinte e poucos. Das viagens malucas de um dia só, no ônibus, sem dormir, cantando, fazendo bagunça, conhecendo algumas cidades e voltando exausta para casa. Ops, verdade. Eu não fiz essa viagem...muita canseira, não compensaria o desconforto.
Então veio-me a lembrança daquele semana de correria, em que viajei todos os dias com medo de chegar irremediavelmente atrasada àquele curso cujo certificado embelezaria o meu currículo. Um segundo depois, lembrei-me de que também não fiz aquilo. Para que tanta correria por um pedaço de papel, certo?
Os shows. As multidões. Os cantores, cantoras, bandas e “artistchas” de quem era fã...não vi nenhum. Ingressos que não fossem camarote significariam confusão, aperto e pouca visão. Também não fui às minhas peças de teatro favoritas, aos cinemas lotados em pré-estréias, nem dei mil voltas de metrô só para experimentar o café de que eu fiquei falando por meses.
Não andei extensões de grandes avenidas a pé, não comprei os brincos mais lindos de um peruano que só sabia falar dos coelhos de Itu, não conheci minha livraria favorita. Não aprendi a dançar. Não morri de medo de cair da montanha-russa. Não gritei a toa num brinquedo, só de farra. Para que gritar? Só crianças fazem isso. Só elas têm medo.
Ok, chega disso. Trinta e poucos anos. Vamos lá. Hum...não saí da casa dos meus pais. Ignorei o pacto que fiz no ultimo ano da faculdade para tentar a sorte numa cidade grande ao lado de dois amigos. Não trabalhei no que eu queria. Não fui independente. Não morei numa quitinete nem esquentei água numa frigideira. Não casei. Nem me reproduzi.É, não deu. Quarenta...nada. Cinqüenta...nada. Sessenta, menos ainda. Setenta, oitenta...oitenta e nove. Noventa.
Noventa longos anos do mais puro NADA. Coisa alguma. Niente. Nothing. O que eu fiz da minha vida? Sempre jurei que medo ou covardia não me prenderiam, que eu faria justamente as coisas que me assustassem. Mas não fiz. Não vivi. Grande porcaria as minhas rugas. Só dizem que eu não ouvi o único conselho que me dariam e não usei filtro solar.

Nessa hora, graças aos céus, acordei. Um sonho. Péssimo, mas um sonho. Ainda dá tempo. Viver, até que não dê mais.

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