Vira e mexe me dá vontade de escrever, de ter um blog, uma vida virtual...algo que um dia eu possa ler e me lembrar, com ricos detalhes e frescuras de épocas e momentos em que eu fui feliz, ou estive triste, mas me lembrar com carinho e pensar “puxa, jura que eu quem escrevi isso? Não me reconheço”
Pois bem, finalmente passei essa vontade pra frente e criei este blog, com um nome memorável dos tempos da faculdade que eu tanto quero esquecer e uma vontade enorme de falar de tudo o que se passa neste ser esquisito – por dentro.

29 de nov. de 2010

Suddenly I see

Faz um mês já que não consigo mais escutar essa música sem pensar nele. Sem pensar na alegria, nas risadas, nas caretinhas para as fotos e na dancinha que nós inventamos para a música que eu adorava. Adorava – passado - porque agora não consigo pensar nela ou ouvi-la sem dor. Já ouvi a frase “Que eu sinta saudade, mas não sinta tristeza”, mas é difícil evitar, bem difícil. E olha que eu conheço pessoas muito mais próximas a ele, sem ser parentes de sangue e só consigo imaginar o que devem estar sentindo.
O pior é que aquele clichê do “nunca vai acontecer comigo” é mais válido do que nunca. Nós nunca sequer pensamos na falta que vamos sentir, em como essa ausência vai ser presença certa em todas as conversas, em todas as baladas, a cada vez que ouvirmos algumas músicas, a cada vez que alguém falar uma daquelas frases familiares que provocavam gargalhadas. Ninguém nunca imagina a falta e a pontada no coração que vamos sentir mesmo da pessoa que não vemos há tempos. E a falta nunca diminui. Nunca.
Uma pessoa impossível, indescritível, que parecia não ter medo de nada ou coisa alguma foi vencida por uma doença cruel, inexorável e rápida, muito rápida. Perdi a conta de quantas vezes eu já acessei todas as redes sociais em busca de uma notícia, uma novidade,algo (ainda acredito) que possa dizer que tudo isso é uma grande mentira – sim, eu pretendo afogar o mentiroso dessa história, mas prefiro afogar a acreditar na verdade que ainda não nos deu nenhum detalhe.
E não, não é curiosidade pelo mórbido, essa característica que atribuem a todos os seres humanos e aos jornalistas em particular, como ouvi tantas vezes na faculdade. É pela certeza do fim, pelo fechamento de um ciclo, como se a saudade saudável só fosse chegar quando nós víssemos, quando ficássemos sabendo de notícias, quando entendêssemos os motivos e a evolução que não acompanhamos.
Sinto saudades, amigo, saudades dos seus “bom-dia”, das risadas, dos palavrões, das bobagens que falávamos, e do tempo (mesmo pouco) durante o qual a sua luz iluminou a minha existência. Que eu possa, a partir de você e da sua presença que nunca sairá de perto de nós, ser uma pessoa melhor. E que eu possa ainda ouvir “Suddenly I see”, lembrar da coreografia e sorrir somente, pensando em você.

90

Tive um professor, no segundo ano de faculdade, que, apesar do breve contato, deixou muitas saudades. Gostava dele, o Wanderley, mesmo. Sei lá, me inspirou a escrever. Numa das aulas, ele nos disse que o livro do semestre seria “Memórias de minhas putas tristes”, do mestre Garcia Márquez. A história é a de um cara de 90 anos que decide ter uma noite de amor com uma menina virgem se apaixona por ela ao vê-la dormindo. E descobre o verdadeiro prazer da vida. Sensacional, mas não é exatamente sobre ele esse post.
O caso é que o prof disse que deveríamos escrever uma crônica sobre nós mesmos, como se tivéssemos 90 anos. Vi vários colegas escrevendo sobre como queriam que a vida fosse (ou seja), mas eu, fresca, decidi fazer o contrário (novidade!!). Decidi escrever sobre como não queria (não quero) ser. E achei até que o resultado foi muito bom. A avaliação foi boa, acho que o prof gostou, e, quando fui procurar pra postar, tchan-tchan...perdi.
Escrevi outra, mais curta, nem tão boa, mas na mesma idéia. Será que pode mesmo ser considerada uma crônica?


Porta-retrato

Ainda que soubesse que eram minhas, não reconheci aquelas rugas me encarando de volta no espelho. Cada um dos meus 90 anos de descuido, de parcimônia e frescura estavam gravados em meu rosto. Pior que o guardião da cripta. Pior. Pior que era mesmo eu.
Nesse fatídico aniversário, pus-me a lembrar de toda a minha vida. Não uma daquelas situações dramáticas em que a vida passa diante de nossos olhos como um flash-back, mas um réquiem, mais uma frescura, para umas boas risadas. Algo que pudesse, de alguma forma, validar as minhas rugas.
Lembrei-me dos meus vinte anos, vinte e poucos. Das viagens malucas de um dia só, no ônibus, sem dormir, cantando, fazendo bagunça, conhecendo algumas cidades e voltando exausta para casa. Ops, verdade. Eu não fiz essa viagem...muita canseira, não compensaria o desconforto.
Então veio-me a lembrança daquele semana de correria, em que viajei todos os dias com medo de chegar irremediavelmente atrasada àquele curso cujo certificado embelezaria o meu currículo. Um segundo depois, lembrei-me de que também não fiz aquilo. Para que tanta correria por um pedaço de papel, certo?
Os shows. As multidões. Os cantores, cantoras, bandas e “artistchas” de quem era fã...não vi nenhum. Ingressos que não fossem camarote significariam confusão, aperto e pouca visão. Também não fui às minhas peças de teatro favoritas, aos cinemas lotados em pré-estréias, nem dei mil voltas de metrô só para experimentar o café de que eu fiquei falando por meses.
Não andei extensões de grandes avenidas a pé, não comprei os brincos mais lindos de um peruano que só sabia falar dos coelhos de Itu, não conheci minha livraria favorita. Não aprendi a dançar. Não morri de medo de cair da montanha-russa. Não gritei a toa num brinquedo, só de farra. Para que gritar? Só crianças fazem isso. Só elas têm medo.
Ok, chega disso. Trinta e poucos anos. Vamos lá. Hum...não saí da casa dos meus pais. Ignorei o pacto que fiz no ultimo ano da faculdade para tentar a sorte numa cidade grande ao lado de dois amigos. Não trabalhei no que eu queria. Não fui independente. Não morei numa quitinete nem esquentei água numa frigideira. Não casei. Nem me reproduzi.É, não deu. Quarenta...nada. Cinqüenta...nada. Sessenta, menos ainda. Setenta, oitenta...oitenta e nove. Noventa.
Noventa longos anos do mais puro NADA. Coisa alguma. Niente. Nothing. O que eu fiz da minha vida? Sempre jurei que medo ou covardia não me prenderiam, que eu faria justamente as coisas que me assustassem. Mas não fiz. Não vivi. Grande porcaria as minhas rugas. Só dizem que eu não ouvi o único conselho que me dariam e não usei filtro solar.

Nessa hora, graças aos céus, acordei. Um sonho. Péssimo, mas um sonho. Ainda dá tempo. Viver, até que não dê mais.

Tristeza é apelido

Não me lembro da última vez que a vi, porque naquela época, duvido que meu pequeno cérebro fosse capaz de registar alguma imagem. Mas me lembro da última. E creio que tão cedo não vou parar de me lembrar: tão pequenina e frágil, com os papéis tão invertidos, eu olhando de cima e velando por ela enquanto estava abatida e cansada de ficar por aqui. Ontem, vendo-a imóvel e fria, com os olhos fundos e semblante calmo, só pude desejar que ela não tivesse sofrido tanto.

Lembro de todas as vezes em que fui até a casa dela. Ela era uma dessas pessoas constantes, que moram a vida toda na mesma casa, tem os mesmos hábitos, permanecem casadas com as mesmas pessoas e lutam pela vida com a mesma fé de sempre. E ela lutou. Pelo pouco que sei da vida da maior guerreira que eu já conheci, não foram poucas e nem sempre boas as coisas por que ela passou. Mas enfrentou com a maior coragem, do alto dos seus 1,60m e seus, no máximo, 50kg.

Lembro de cada pedacinho de doce de leite caseiro que ela me ofereceu, de cada pão-de-ló, de cada abraço, de cada pote da MELHOR maionese caseira do mundo, de cada "liquita". Todos nós éramos "liquitos". Não tenho a menor idéia do que significa, nem se significa alguma coisa, mas suponho que seja italiano e que seja algo muito carinhoso. Ai que saudade.

Não é porque se foi que virou santa. Ainda. Claro que D. Déo tinha seus defeitos. Turrona e cabeça-dura, jamais admitia que estava errada, nem que a prova estivesse dançando ali na frente. Mas mesmo nesses momentos, era humana, e estava presente. Mais presente que muitos outros.

Ontem eu fui até o fim. Me obriguei a olhar pra ela e pedir para Deus que tomasse conta da minha vozinha, que cuidasse dela e que ela, se pudesse, olhasse por nós que ficamos aqui. Ontem eu fui até o fim, talvez por não acreditar que fosse verdade. Ontem eu fui até o fim pq hoje eu estou aqui, morrendo de saudade.

Sei que é egoísmo chorar, sofrer...pq provavelmente ela está melhor que nós todos, descansando em paz, como ela sempre mereceu. Mas, quem disse que falar e fazer são ações parecidas? Eu sofro e eu choro, mas eu rezo também, e eu acredito que um dia a gente ainda vai se encontrar de novo.


Um beijo, vó.
Te amo demais. Para sempre.

Da sua liquita moreninha